
Wander e os Colossos, entre
o Ocidente e Oriente
Autor da pesquisa: Samir de Barros Rebêlo.
O desenvolvimento do jogo em questão passou por diversas etapas até alcançar as mãos dos consumidores (público-alvo). Sua produção foi realizada pela Sony Computer Entertainment Inc (SCEI) e a distribuição pela Sony Computer Entertainment America (SCEA) (Júnior, 2009,p. 52). O gênero converge elementos distintos da arte, edificando algo memorável, ação, aventura, fantasia, quebra-cabeças, são características observáveis em sua superfície comercial. Contextualmente é correto dizer que o lançamento ocorreu entre dezembro e fevereiro, em 2005, para a plataforma Playstation 2 (Euzébio, 2019, p. 14-15). O grupo idealizador e criador do jogo se chamava Team IcoFoi um grupo de desenvolvimento de jogos ligados a Sony Computer Entertainment Japan Studio (SCEJS). Atualmente o grupo se desagregou. Todos os integrantes foram importantes em suas respectivas funções, todavia, o visionário e diretor, Fumito UedaNasceu em Tatsuno, Japão. Ele se graduou em Artes pela Universidade de Artes de Osaka 1993. Em 1995 Fumito Ueda iniciou sua carreira dentro da insdústria dos jogos eletrônicos., geralmente, é lembrado, respeitado e considerado a mente por trás de Wanda to KyozōMais informações oficiais sobre o jogo pode ser encontrado em Livro oficial de estratégia e cenário de Shadow Of the Colossus.1. Ed, 27 Entertainment Inc. ISBN4-7577-2580-9..
É possível dizer, sem receio, que Fumito Ueda é um excelente diretor, suas contribuições para o mundo dos jogos eletrônicos exemplificam-se através dos recursos narrativos e visuais. Dessa forma, o jogador (receptor sensível) e o produto (agente desencadeador da sensibilidade pensada pelos seus desenvolvedores) se conectam emocionalmente com intensidade, isto é, as ações tomadas por nós (jogadores) reverberam dentro daquele universo (o jogo). Logo, realidade e ficção interagem através do espírito humano. Além disso, Wanda to Kyozō detém um roteiro bastante simples, mas, não superficial, quer dizer, não sabemos, detalhadamente, quase nada sobre os personagens ou os desdobramentos do enredo que iniciaram ou finalizaram a estória, cabe ao observador limitado interpretar.
Suas obras têm sempre as mesmas características básicas: a
maioria de seus personagens falam línguas desconhecidas; seus
enredos são incompletos (não possuem início ou explicações de
finida); seus diálogos são curtos. No entanto, seus jogos têm a
capacidade de despertar sentimentos e empatia com seus perso
nagens. Ueda deixa claro nas expressões e emoções se seus per
sonagens o esforço por que passam para o cumprimento de sua
tarefa (Euzébio, 2019, p. 15).
Talvez seja a razão substancial para a longevidade e atemporalidade dessa obra. Em 2011 uma melhoria gráfica permitiu a disponibilização da mídia física (o jogo) em alta definição, foi chamado de The IcoÉ um jogo eletrônico de aventura e ação, demasiadamente focada em quebra-cabeças. Foi lançado para Playstation 2 em 2001. A empresa detentora dos direitos autorais é a Sony Computer Entertainment (SCE). Fumito Ueda também foi o diretor desse jogo, deteve bastante experiência com Ico, anos depois Shadow of the Colossus seria revelado ao mundo. & Shadow of the colossos collection para o Playstation 3. Sete anos depois, em 2018, após o surgimento de um novo sistema, o Playstation 4, o jogo foi inteiramente recriado graficamente do zero, revitalizado para as gerações futuras.
A obra, Wander e os Colossos
Resumidamente, o enredo pode ser descrito da seguinte forma, Wander, o protagonista, parte em direção às Regiões Proibidas a fim de encontrar uma força capaz de ressuscitar uma jovem donzela chamada Mono. Wander adentra no Templo do Altar e em seguida coloca Mono em um altar onde a luz do sol é capaz de tocar. Posteriormente, alguns elementos da estória são apresentadas através de um narrador, até o momento, desconhecido.
Esse lugar… Começou com a ressonância de pontos que se cruza
ram… São memórias substituídas por unidades e zeros e gravadas
na pedra. Sangue, jovens rebentos, céu, e aquele com a habilidade
de controlar seres criados da luz… Nesse mundo, diz-se que quem
desejar pode trazer de volta as almas dos mortos… Mas invadir
essa terra é terminalmente proibido (Playstation4, Shadow of the
Colossus, 2017. Marcação nossa).
Wander desembainha a Espada Antiga em direção a luz do sol e algumas sombras humanoides que o seguiam, dentro do Templo do Altar, são dispersadas. Nesse momento Wander finalmente encontra Dormin (possui duas vozes, uma masculina e outra feminina), uma entidade que faz sua voz se reverberar dos céus através de uma abertura circular no teto do templo.
Dormin – Hum? Você tem a espada ancestral? Então você é mor
tal… Wander – Você é Dormin? Me disseram que neste lugar no fim
do mundo, existe um ser que pode controlar as almas dos mortos.
Dormin – Está correto… Somos aquele conhecido como Dormin…Wander – Ela foi sacrificada porque tinha um destino amaldiçoa
do. Por favor… Preciso que traga de volta a alma dela… Dormin
[Dormin sorri] – A alma daquela donzela? Almas que foram per
didas não podem ser resgatadas… Não é essa a lei dos mortais?
Com essa espada, contudo… Talvez não seja impossível. Wander – Sério?! Dormin – Contanto, claro, que você consiga realizar o
que nós pedimos. Wander – O que eu tenho que fazer? Dormin –
Eis os ídolos que jazem na parede… Você deve destruir todos eles.
Mas, esses ídolos não podem ser destruídos pelas meras mãos
de um mortal… Wander – Então o que devo fazer? Dormin – Nesta
terra, existem colossos que são as encarnações desses ídolos. Se
derrotar esses colossos, os ídolos cairão. Wander – Entendo. Dor
min – Mas saiba que o preço a pagar pode ser caro. Wander – Não
importa. Dormin – Muito bem… Eleva tua espada para a luz… e vai
ao local onde a luz da espada se encontra… Lá, você encontrará o
colosso que deve derrotar (Playstation4, Shadow of the Colossus, Adaptação e marcação nossa).
A missão de Wander após a audiência com a entidade é derrotar os 16 colossos ou gigantes que estão espalhadas nas Regiões ProibidasUm simbolismo associado ao Tabu acerca dos mortos. Provavelmente, o “certo” seria não se envolver com eles..
A ambivalência de Wander, heroísmo, vilania ou relativismo?
Wander é detentor de inúmeras imagens, elementos ou características que não, obrigatoriamente, o configura a uma cultura específica. Em contrapartida, Wander e os Colossos é uma produção culturalmente japonesa, e existem rastros muito claros e particulares próprios dessa cultura presentes na obraDesenvolveremos esta afirmação no tópico relacionado à “purificação”.. Os temas principais incorporados no protagonista são a coragem, o sacrifício e o egoísmo.
Figura 1: Wander

Fonte: Artbook (2006, p. 6).
Ora, Wander é a personificação, a exemplo, da bravura, ainda que sua jornada seja muito perigosa, ele não recua, pois, sua missão é pelo bem da donzela, em outras palavras, o rapaz se aproxima do ideal “cortês” medieval ocidental “[…] esse amor […] ele se assimila a uma ardente devoção, expressa em termos de vassalagem: a vassalagem amorosa” (Flori, 2005, p. 146) nesse sentido. Wander poderia se aproximar da cultura medieval, todavia, ele não é um cavaleiro ou se encaixa perfeitamente neste conceito do “amor cortês”. Geralmente, quando falamos sobre o “amor cortês”, ele é extraconjugal, embora, não seja necessariamente adúltero (González, 2013, p. 209-210). Nesse caso, a dama impõe uma série de provações ao cavaleiro que precisará superar. O amor sexual não, obrigatoriamente, se concretiza. Logo, tal ideal, não traduz Wander e os Colossos.
Pela vida da amada, Wander externa imensa devoção, realizando uma série de provações que partem indiretamente de Mono. O passado da garota é vago, ela foi sacrificada por ter um destino maldito e, provavelmente, foi o motivo do seu povo findar sua participação naquela, abstrata, sociedade. Wander não almeja uma ascensão, individual, com o sagrado, como um mártir peregrino faria até a Terra Santa na Idade Média (Gomes, 2014, p. 167-168). Assim como esses andarilhos devotos, ele passa por muitas dificuldades na jornada, mas, Wander não visa purificação dos seus pecados, ele mesmo após derrotar diversos colossos é corrompido pela “morte”, tornando-se “maldito”.
Alguns paralelos podem ser estabelecidos entre a cultura medieval e Wander e os Colossos. Em Der Arme Heinrich, “Henrique ao se afastar de Deus […] é acometido por uma grave doença, fator que o impele ao isolamento de seus antigos companheiros” (Zierer; Júnior, 2017, p. 83). Wander ao se afastar das leis do seu povo, isto é, se aproximando das Regiões Proibidas e, consequentemente, interagindo com Dormin, é acometido pelo miasma obscuro, deturpando sua forma. Há, todavia, diferenças no término das narrativas, Henrique recusa que sua serva se sacrifique por ele, dessa forma, ele recupera sua saúde pela graça de Deus (Zierer; Júnior, 2017, p. 37-38). Wander não é recompensado, afinal, Mono revive, mas, ele se torna um bebê com chifres e, possivelmente, não se lembrará do que fez por ela, é uma criatura nova e, igualmente, trágica.
Afirmamos que esse personagem, assim como a obra, não é maniqueísta. Logo pensar em conceitos como bondade, em si, ou maldade, em si, é limitar sua proposta. Wander não se importa com as consequências das suas ações e parte em uma jornada, profundamente, egoísta, ressuscitar a pessoa que ele ama e contrariar seu próprio povo liberando o deus proibido.
Dormin, uma entidade de muitas faces
Figura 2: Dormin

Fonte: Artbook, 2006, p. 187.
Talvez, Dormin, não seja a representação (simbolicamente) de um deus monoteísta. Esse ser, aparentemente, foi selado há muito tempo pelo povo de Wander. A obra não se preocupa em preencher as lacunas narrativas existentes, todavia, as evidências apontam para um caminho onde Dormin possui diversas faces. A entidade é concebida, pelo povo mascarado, como um ser maligno, porém, Wander não transparece qual quer receio contra a entidade, possivelmente, pela urgência da missão.
Ora, Dormin, neste prisma, é extremamente ramificado e a lógica monoteísta talvez não se aplique, satisfatoriamente, para descrever sua natureza, mesmo havendo referências bastante óbvias ao Antigo Testamento. Há uma insinuação sutil a ambiguidade em Dormin, ele/ela não mentiu para Wander em nenhum momento, afinal, foi enfático “Mas saiba que o preço a pagar pode ser caro” (Playstation4, Shadow of the Colossus, 2017), pela dádiva da ressurreição. Paralelamente, Dormin só poderá realizar tal feito se Wander derrotar os Colossos, ambos, Wander e Dormin são dependentes um do outro, o que o torna, ele/ela, limitado, ou seja, a entidade não é onipotente. O ser também detém seus interesses particulares, quer se libertar das amarras que prenderam sua existência “nesse mundo” (Ibidem), isto é, deseja retornar ao mundo material.
Acreditamos ser limítrofe condicioná-lo ao Mal monoteísta, afinal, seguir seu objetivo pessoal não foi diferente do protagonista em sua missão particular, ambos queriam realizar um desejo, contudo, há algo de assustador em Dormin sem dúvida. Dormin mais do que qualquer outro personagem, em Wander e os Colossos, parece ter sido pensado em confluência com diversas imagens culturais, rastros que nos direcionam, por exemplo, ao Antigo Testamento da história mítica dos hebreus. Se lido ao contrário, o nome da entidade significa Nimrod. Esse personagem é descrito na Torá, em Gêneses 10 (8-12), como o primeiro poderoso na terra.
8. Cush também gerou a Ninrode, o qual foi o primeiro a ser pode
roso na terra. 9. Ele era poderoso caçador diante do Senhor; pelo
que se diz: Como Ninrode, poderoso caçador diante do Senhor. 10.
O princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na ter
ra de Sinar. 11. Desta terra saiu ele para Assíria e edificou Nínive,
Reobole-Ir, Calá, 12. e Résem entre Nínive e Calá (esta é a grande
cidade) (Gêneses 10, (8-12), p. 10)Pesquisar pelas versões da Bíblia Sagrada de 1987, 1997 e 1999.
Em História dos Hebreus de Flávio Josefo, o historiador, judeu do primeiro século d.e.c., o descreve como neto de Cam, descendente de Noé, foi ele, Ninrode, que levou os adoradores de Deus a desprezá-lo, desafiando sua autoridade, construindo uma torre enorme que poderia tocar nos céus, protegendo-se contra um novo dilúvio e se vingando de Deus, pelos ancestrais mortos na catástrofe. O templo do Altar também é apoteótica, tão proeminente que parece tocar os céus.
Ninrode, neto de Cam, um dos filhos de Noé, foi quem os levou
a desprezar a Deus dessa maneira. Ao mesmo tempo valente e
corajoso, persuadiu-os de que deviam unicamente ao seu próprio
valor, e não a Deus, toda a sua boa fortuna. E, como aspirava ao
governo e queria que o escolhessem como chefe, abandonando a
Deus, ofereceu-se para protegê-los contra Ele (caso Deus amea
çasse a terra com outro dilúvio), construindo uma torre para esse
fim, tão alta que não somente as águas não poderiam chegar-lhe
ao cimo como ainda ele vingaria a morte de seus antepassados
(Josefo, 2004, p. 27).
Essa figura, Dormin, por outro lado, atende a características da cosmovisão japonesa, no entanto, explicaremos no tópico da purificação.
Mono, a donzela sacrificada
Figura 3: Mono

Fonte: Artbook (2006, p. 8).
A donzela é a motivação do “herói”, e sobre ela sabe-se muito pouco, portanto, nos contentaremos em analisar o que pode ser estudado sobre ela. Mono foi sacrificada por ter um destino, imagem do futuro, comprometido com um mau agouro e, ironicamente, Wander só parte para as Regiões Proibidas porque Mono é morta pelo seu próprio povo. Wander liberta Dormin cumprindo, exatamente, o que seu povo tentou evitar tirando a vida da garota.
Podemos vislumbrar fortes semelhanças com o destino tão enraizado aos parâmetros helênicos, a saber, Édipo reiPesquisar por Édipo Rei de Sófocles, tradução de Paulo Neves (2014).. O rei Laio, de Tebas, foi acometido por uma profecia, o seu filho, futuramente, o mataria. Então pede aos seus servos que abandonassem o bebê no Monte Citerão. Édipo cresce e, em uma discussão na estrada, mata seu próprio pai, Laio, sem saber. Ele também derrota a esfinge que atormentava Tebas, resolvendo seu enigma, torna-se rei de Tebas e desposa a própria mãe, Jocasta, a rainha, inocentemente. Em ambas as obras o desejo do não acontecimento, impedir que algo aconteça, resulta na sua realização, isto é, consequência das interferências do medo.
Ademais, existem elementos (visuais) que tornam o tema maldição complexo, isto é, Mono é semelhante aos outros personagens, multifacetada. A obra estabelece duas perspectivas, os antecedentes da protagonista, amaldiçoada, e a visão de Wander sobre ela. Ora, ele a ama e, evidentemente, não assumiria tal risco se não sentisse algo pela personagem. Wander não é um herói “todo bom”, sabemos disso, pois, EmonLorde Emon é um personagem introduzido à narrativa após Wander derrotar o décimo segundo colosso. A voz do narrador inicial é a mesma voz de Emon, o que sugere que ele introduziu os elementos conceituais no prólogo do jogo o adverte da loucura que é confiar em Dormin, “Faz ideia do que fez? Não só roubou a espada e invadiu esta terra amaldiçoada, como também usou a magia proibida […] Você só estava sendo usado” (Playstation4. Shadow of the Colossus, 2017). Além disso, o altar onde Mono se encontra é sempre iluminado pela luz do sol, cercada por pombas brancas, as vestes brancas em confluência com a sua beleza transformam-na em um símbolo de pureza, quase como uma “virgem” ou uma “santa”. Mono é a representação encarnada dos sentidos atemporais de Wander, tristeza, dor, sofrimento pela perda de um ente querido, o luto que, claramente, o “herói” não soube lidar.
Sobre o luto uma das narrativas mais interessantes que podemos citar é o Épico de Gilgamesh. Quando o seu melhor amigo, Enkidu, perece, ele, Gilgamesh, lamenta por dias em prantos. Com medo da morte iniciou uma busca pela imortalidade (Brandão, 2021, p. 99-115) Algo semelhante a Wander e os Colossos pode ser encontrado em Ao Kurnugu terra sem retorno, a deusa da guerra e do sexo, Ishtar, sente a falta do seu irmãoHá muitas versões sobre a relação de Ishtar/Inanna e Dumúzi, e suas particularidades divinas. A cosmovisão associada à descida da deusa ao mundo dos mortos, bem como, do seu irmão pode ter haver com ciclos naturais como a agricultura e a própria noção de morte, e as homenagens aos mortos através de oferendas. Pesquisar por Ao Kurnugu, Terra sem retorno: Descida de Ishtar ao mundo dos mortos de Jacyntho Lins Brandão (2019). , Dumúzi, que desceu ao submundo, e deseja que ele suba novamente até o mundo dos vivos. Ora, acometidos pelo luto, Gilgamesh, Ishtar e Wander se aproximam através dos seus elementos em comum, a dor de perder alguém importante e, especificamente, Wander e Ishtar, a esperança do retorno.
A água da purificação, entre o sagrado e o profano
Nós, o personagem, somos introduzidos a um reservatório de água logo no início da obra, mas, não temos consciência da sua importância até lorde Emon lançar a Espada Ancestral sobre a água. As propriedades mágicas da espada se misturam com a água tornando-a purificante. Dormin/WanderNo final da obra, quando Wander derrota todos os colossos Dormin domina o corpo de Wander e se livra da sua prisão, iniciando uma batalha contra lorde Emon e seus guerreiros mascarados. são puxados por fortes tufões, dentro do templo, lançando-os no interior das águas sacras. Ora, as sociedades humanas ocidentais e orientais desenvolveram, culturalmente, ritos de limpeza, de uma sujeira visível, e, por outro lado, de um miasma invisível. No caso de Wander, tal corrupção é bastante notável. Após derrotar todos os colossos sua forma humana se altera consideravelmente, seu sangue é escuro, seus cabelos ruivos se tornam pretos como a noite, sua voz se distorce e chifres eclodem da sua cabeça.
Figura 4: O Reservatório da Purificação

Fonte: Artbook (2006, p. 154).
Apesar do reservatório de água, purificador, aludir a uma série de elementos culturais díspares, envolvendo ritos com água, Mesopotâmia, Grécia e Levante – por exemplo, o batismo de Jesus no rio Jordão (Mateus 1, 9-14), a metáfora de nascer novamente da água e do espírito (João 3, 1-21), os rituais de purificação das estátuas dos deuses mesopotâmicos (Hurowitz, 2003, p. 207) e o falso rito purificante realizado por Ifigênia no mar (Bourscheid, 2012, p. 224) – existem evidências que sugerem um rastro cultural, intimamente, associado ao lugar onde se originou Wander e os Colossos, o Japão.
Lorde Emon diz aos seus guerreiros mascarados a seguintes palavras, “Veja… Ele está possuído pelos mortos”, essa afirmação do personagem indica, muito provavelmente, uma estreita relação com a cosmo
visão e ritualística japonesa. O misogi harai, a saber, é o ato do indivíduo se banhar em fontes de água, onde a limpeza terapêutica é realizada, purificando o sujeito com o poder deste elemento (Nunes, 2018, p. 6-7). Além disso, essa prática ritualística faz alusão ao primeiro uso deste rito, quando Izanagi-no-Kami realiza sua purificação com água ao retornar do mundo dos mortos, o Yomi (Phillippi, 1969, p. 68) no KojikiÉ uma obra cosmogônica japonesa que relata a criação das ilhas japonesas, genealogias, tradições orais e relatos sagrados que remontam uma ancestralidade. A obra data do século oito d.e.c., mas, seu conteúdo remonta a períodos desconhecidos. .
Outros elementos análogos ao Kojiki e Wander e os Colossos são as motivações dos personagens, na cosmovisão japonesa Izanagi-no-Kami deseja rever sua esposa morta, Izanami, e trazê-la de volta aos vivos (Zitto, 2021, p. 13-14); Wander detém o mesmo desejo e propósito, trazer de volta Mono da morte. A diferença, crucial, é que Izanagi-no-Kami se assusta com a esposa cadavérica e foge do Yomi (Zitto, 2021, p. 13-14); Wander não foge da sua missão; ambos os personagens da narrativa passam por um processo de purificação (Chamberlain, 1932, p. 102-103)Chamberlain (1932) utiliza uma série de analogias à mitologia grega considerando o
Yomi e o Hades como paralelos “perfeitos”, mas, isso é extremamente questionável. São cosmovisões distintas. Utilizamos sua obra, pois, também traz elementos da cosmovisão japonesa como as demais bibliografias citadas. e possuem um relacionamento trágico com suas parceiras.
Izanagi-no-Kami realiza o primeiro rito, misogi harai, em um rio limpando os resquícios da morte em seu corpo; Wander é purificado na água do templo e vira um bebê no momento em que Dormin, a “morte”,
é, totalmente, expurgado de seu corpo, mas, ainda permanece com pequeninos chifres. Dormin também possui características que podemos relacionar com os kamis criadores, Izanami e Izanagi, isto é, uma voz
masculina e outra voz feminina. Pode ser um rastro do imaginário japonês em Wander e os Colossos. Fumito Ueda, em entrevistas, detalha que alguns aspectos dos seus jogos se inspiram na cultura japonesa como a existência de melancias em Ico, elemento que também existe em Wander e os Colossos.
Sobre a melancia… É só por diversão. Se você diz oceano, dize
mos melancia; no Japão, a associação do litoral com melancia é
muito forteSuikawari trata-se, possivelmente, de uma prática japonesa associada a uma brincadeira
em que se parte uma melancia com uma vara, geralmente, ocorre em praias no verão. . E o animador veio e disse: “eu fiz essas animações
de comer melancia”, então dissemos, vamos colocá-las! E assim,
nós fizemos!“About the watermalon… It’s in just for fun. If you say ocean, we say watermalon; in Japan,
the association of seaside and watermalon is very Strong. And the animator come and said,
‘i’ve made these watermalon-eating animations’, so we said let’s put them in! And so, we did!”. Procurar por FUMITO UEDA INTERVIEW – Shadow of the Colossus and ICO Designer – Secrets
Revealed. Acessar em: www.youtube.com/watch?v=G2svF-fV4VU&ab_channel=LeaLTudo.
Considerações finais
Assim, Wander e os Colossos possui temas que transcendem uma determinada cultura, arquétipos que põem em xeque a temática do “herói”, suas virtudes, coragem, determinação, força, suas falhas de caráter,
egoísmo, intransigência, traços que aproximam, mesmo que não fosse essa a ideia, o protagonista do público alvo. Podemos observar fortes inspirações bíblicas, derivadas do Oriente Próximo e, também, da pró
pria cultura japonesa, a exemplo o Kojiki, no Extremo Oriente. Com certeza há muito o que ser explorado, analisado, investigado em um jogo eletrônico desta natureza, este não foi o primeiro trabalho sobre tal objeto e, certamente, não será o último.
Referências
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